Relatório Científico

Um filme perdido, um relatório econtrado, uma memória que fica, o coração apertado…

FACULDADES INTEGRADAS HÉLIO ALONSO

CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

Gabriela Torres Barbosa

VERSÃO DO PASSADO: SEU CLÁUDIO

Rio de Janeiro

2013

FACULDADES INTEGRADAS HÉLIO ALONSO

CURSO DE GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL

VERSÃO DO PASSADO: SEU CLÁUDIO

Relatório apresentado ao Curso de Graduação em Comunicação Social das Faculdades Integradas Hélio Alonso, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo.

Prof. Orientador: Pedro Murad 

Rio de Janeiro

2013

VERSÃO DO PASSADO: SEU CLÁUDIO

Gabriela Torres Barbosa

Relatório apresentado ao Curso de Graduação em Comunicação Social das Faculdades Integradas Hélio Alonso, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação, submetido à aprovação da seguinte Banca Examinadora:

__________________________________

Prof. Pedro Carvalho Murad

(Orientador)

__________________________________

Prof. Marcio de Lima Riscado

Membro da Banca

__________________________________

Prof. Verônica Toste Daflon

Membro da Banca

Data da defesa

13 de dezembro de 2013

Rio de Janeiro

2013

AGRADECIMENTOS

 Agradeço à minha heroína, a pessoa mais importante da minha vida, aquela que me conduz e me orienta a cada dia com firmeza, paciência e dedicação. Minha primeira professora de ética. Ensinou-me a fazer o bem ao próximo e o melhor de mim. Maria Nazaré Torres, minha mãe. A mulher mais obstinada que conheço na arte de viver, acolher, e se doar de corpo e alma.

Aos meus excepcionais amigos e companheiros da FACHA e da vida que tornaram possível através de críticas, parcerias e apoio verdadeiro. 

À todos os professores da FACHA que contribuíram na minha formação acadêmica e pessoal.

À Isabella Massa de Campos que fez o favor de avisar que eu poderia contar histórias.

Ao Naílton de Agostinho Maia que leu meus poemas e artigos, escritos intuitivamente, publicados na revista Ocas’ (2002/2004), me trouxe até a Comunicação, acreditou em mim, e me fez acreditar na possibilidade do jornalismo social. Um homem que através dos projetos Turismo Popular e Versão do Passado, do NECC (Núcleo de Educação e Comunicação Comunitária), inspirou várias pessoas a contribuir de forma sincera, sensível e social. 

Ao Coletivo Comunitário de Pessoas Extraordinárias: Álvaro Maciel; Arley Macedo da Silva; Carlos Augusto Pereira; Fabiana Melo Sousa; Fabiana Pereira; Glauber Onofre; Jorge Alexandre Firmino (Tandy); Luiz Carlos Lima; Paolla Moura; Robson Mello, representado aqui por alguns membros dentre tantos outros, que contribuíram e contribuem na discussão por um mundo melhor e na prática de ações para que a utopia caiba na realidade. 

      Ao Senhor Cláudio Roberto Batista por nos emprestar sua vida, memória e história de maneira generosa, delicada e paciente.

RESUMO

Este relatório técnico-científico apresenta a trajetória do processo de realização do vídeo-documentário “Versão do Passado: Seu Cláudio”, elaborado como trabalho de conclusão do Curso de Comunicação Social – Jornalismo. O objetivo do vídeo-documentário é narrar a história da favela Chapéu Mangueira, zona sul do Rio de Janeiro, e de seus moradores através do olhar de Cláudio Roberto Batista, morador e peça importante na construção social local. Grande ator social presente em: mutirões, bloco de carnaval, mediação de conflitos como membro da associação de moradores e através do esporte. Hoje, formado em Sociologia, atua como professor no pré-vestibular da favela Babilônia, vizinha, irmã, da favela Chapéu Mangueira. Cláudio contribui inspirando os jovens através de suas experiências. 

Palavras Chaves: Comunicação Comunitária. Educação. Saber Popular. Memória. Tradição Oral. Chapéu Mangueira. Babilônia.

SUMÁRIO

1. Introdução 7

2. Referencial Teórico 9

3. Metodologia 12

4. Considerações Finais 17

5. Referências Bibliográficas 18

INTRODUÇÃO

 “Versão do Passado” é um projeto do antigo NECC (Núcleo de Educação e Comunicação Comunitária), que tinha como objetivo resgatar a história e a memória de locais de baixa renda, em sua maioria favelas. O vídeo-documentário é uma das ferramentas usadas para o registro das histórias, que geralmente era mantida através da tradição oral. O projeto viabilizou a documentação do passado de diversas pessoas simples, em diversos locais da cidade e uma delas é a favela Chapéu Mangueira retratada e perpetuada através deste documento.

“Coletivo de Pessoas Extraordinárias” é a continuidade do grupo de estudos e trabalhos que se reunia na FACHA para pensar e construir a comunicação de maneira social. É ainda a continuação e o desdobramento do projeto “Versão do Passado”. A construção do vídeo-documentário “Versão do Passado: Seu Cláudio” teve início nos encontros do projeto “Versão do Passado” e foi finalizado pelo “Coletivo de Pessoas Extraordinárias”, organizado e inspirado pelo professor Naílton de Agostinho Maia.

           Cláudio Roberto Batista _ Nascido em Botafogo em 1950. Morou em Ipanema, na casa dos patrões da mãe, que foi empregada doméstica. Viveu ainda em Minas Gerais com a avó. Sua chegada à favela Chapéu Mangueira se deu em 1954 quando a mãe e o padrasto compraram o primeiro barraco compartilhado com o tio e a avó. O sociólogo, o Seu Cláudio, o morador antigo e respeitado da favela Chapéu Mangueira ou ainda Tio Cláudio, o educador, o professor do pré-vestibular comunitário. Este homem forte e líder comunitário foi o nosso escolhido para esta edição do projeto “Versão do Passado”. 

           A infância pobre, rústica e simples é retratada aqui de forma carinhosa e sem nenhum rancor. Através de seu olhar muito especial, torna os momentos mais bonitos. A ausência e o desconhecimento da identidade paterna, que ainda permeia sua curiosidade. Demonstra nostalgia ao falar de suas memórias num lugar em que o rádio era o grande objeto de desejo. O depoimento sobre a família como base de sua educação, demonstra que o respeito, a coletividade e a esperança eram os bens mais preciosos para construir um lugar feliz para todos.

       Quando relata a violência da guerra urbana, a emoção que emana dele é de alívio por hoje não haver corpos de jovens a cada enfrentamento com a polícia e outras facções. É a esperança de um futuro melhor para a juventude local que o faz seguir lutando por dias cada vez melhores.

O poder da transformação e da força de vontade é reconhecido claramente quando vemos sua responsabilidade em ser o homem forte da família.  Pai e avô coruja, venera a família que construiu ao lado de sua esposa Dilma. Um amor da infância que ele mantém vivo. Dissera que ia se casar com a moça assim que a viu pela primeira vez, ainda sem saber seu nome. 

Lutou contra o fluxo natural das coisas dentro do contexto de um menino favelado daquela época. Brigou contra o óbvio, o inimigo social. Enfrentou suas dificuldades e fez a diferença quando escolheu ser cidadão de direitos e deveres.

          Destaque na participação comunitária desde a infância através da influência da igreja católica, e seu incentivo à prática da boa ação do dia e seus mutirões. Escoteiro, as lições aprendidas por Cláudio reverberaram e reverberam em sua vida. Ator social da educação dá aulas no mesmo pré-vestibular onde estudou. Persistente, incentiva seus alunos a ingressarem na academia. E influencia a todos que passam por ele com a pergunta chave: Está estudando? Não? Então, te aguardo segunda-feira no curso.

          O olhar de Cláudio é realista, e ao mesmo tempo romântico, nostálgico e generoso. Cumpre a sua missão, a de ser espelho, e educar para mudar.

REFERENCIAL TEÓRICO

Algumas análises foram realizadas para a confecção do objeto: Versão do Passado – Seu Cláudio, para compreender sua história aliada à história local, sua forma de atuação, objetivos e o modo de participação, e atuação na comunidade como cidadão e parte integrante de sua história. 

Os trabalhos analisados ajudaram a levantar questões. Através da tradição oral como se deu a história: Como se dava a participação coletiva, através dos mutirões e como se dá hoje? Qual foi a influência do folclore, da cultura e do sincretismo religioso na sua formação? Quais eram as dificuldades no início da construção da comunidade? Quem é Cláudio Roberto? O que mudou desde a chegada de Cláudio Roberto à favela Chapéu Mangueira? Relatar todas as questões sociais e conduzir da oralidade à documentação social. A preservação da história diretamente ligada à construção do ator social. Esse é o fio condutor do meu objeto.

A mídia comercial dificilmente conta este tipo de história simplesmente porque não vende, não é um produto, e sim, poderia romper com o sistema existente de dominação através da comunicação de massa. A partir do momento em que as pessoas encontrassem sua própria identidade o sistema se romperia. A identidade é construída a partir de referência e estas estão há muito corrompidas pelo excesso de informação e pouco conteúdo histórico afetivo.

Do mesmo modo Ecléa Bosi assim observa:

O receptor da comunicação de massa é um ser desmemoriado. Recebe um excesso de informações que saturam sua fome de conhecer, incham sem nutrir, pois não há lenta mastigação e assimilação. A comunicação em mosaico reúne contrastes, episódios díspares sem síntese, é a-histórica, por isso é que seu espectador perde o sentido da história. (BOSI, 1994, p. 87)

Quando a autora apresenta sua tese de doutorado defendida em 1978 intitulada Memórias da Velhice: lembranças de velhos, ela examina exaustivamente a função da memória na velhice tecendo seu estudo sobre inúmeros pensadores da memória, especialmente Maurice Halbwachs, que fala da substância social da memória, coletiva e grupal, e Henri Bergson, cuja teoria se torna uma objeção à psicologia social de Halbwachs por considerar que:

“o universo das lembranças não se constitui do mesmo modo que o universo das percepções e das ideias” (BOSI, 1994, p.46)

A narrativa é fruto do meio, ela se origina do universo das pessoas e sua cultura. Vem carregada da carga de memória atada pelos laços afetivos da infância e da tradição oral. Tais narrativas servem para conduzir suas crianças e formar os líderes de seu grupo.

Benjamim vê essa rede desfeita no momento em que surge a era do mercantilismo imprimindo seu ritmo acelerado na vida cotidiana. Nela as ações da experiência estão em baixa e levam à extinção o espírito da are narrativa:

“Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente responsável por esse declínio” BENJAMIM, 1994, p.203)

      Como uma espécie de psicanalista da história, Benjamin vislumbra que as mudanças no progresso muitas vezes vão envolver perdas, e volta sempre em sua reflexão sobre a questão do empobrecimento da experiência humana que leva à extinção a arte de narrar. Ao contrário da informação, a narrativa não está interessada em transmitir o “puro em si” na coisa narrada como num relatório. 

         Os contadores de histórias, que atravessaram o tempo com suas narrativas essenciais imbuídas de matéria-prima de sua própria experiência, receberam diversos nomes, como griot para os africanos, bardos para os celtas, rapsodo para os gregos. Cléo Busatto assim define o contador tradicional, cujas palavras perpetuavam mito e mantinham viva uma memória da comunidade:

“Era um sujeito que se valia da narração oral como via para organizar o caos, perpetuar e propagar os mitos fundacionais das suas culturas. Um sujeito que mantinha vivo o pensamento do seu povo por meio da memória prodigiosa e que o divulga por meio da arte. Sua forma de expressão, a voz manifestada por meio de um corpo receptivo e maleável.” (BUSATTO, 2008, p.18)

          O contador tradicional, aquele que traz nas suas narrativas fatos de sua vida, isto é, que retira suas histórias de sua própria existência, pertence ao universo artesanal citado por Benjamin, agregando à sua prática saberes que compartilha  com seus ouvintes. Para isso, ele não utiliza técnicas adquiridas em cursos ou dinâmicas, mas extrai de sua experiência vivida os significados e a interpretação do fato narrado. Este contador, oriundo de uma tradição em extinção, hoje  convive com  o contador contemporâneo que estuda, pesquisa e se apresenta apropriando-se das novas tecnologias. A arte de narrar, então ganha novos suportes, como CDs, CD-ROMs, DVDs, ampliando o seu raio de ação social e sensibilização, ao mesmo tempo que se insere nesta pós-modernidade que se apresenta trazendo outras perspectivas para sua arte ancestral. 

          Mostrar a história de Cláudio é contribuir para que a história local se perpetue, contrariando o que aconteceria se dependesse de algum canal formal de narrativa. Cláudio é um contador de sua própria e história e nós os técnicos ali munidos de tecnologias, famintos de simplicidade.

         Cumprimos aqui o papel do comunicador social, que ouve e retrata de forma integral e não corrompida a história dessas pessoas que constroem nossa sociedade.

         São muitas as histórias a serem narradas daqui por diante, este é só um retrato social em meio a tantos existentes na favela Chapéu Mangueira e em tantas outras favelas repletas de sabedoria popular, impregnadas em sua oralidade e costumes.

METODOLOGIA

A metodologia utilizada na confecção do vídeo-documentário foi composta pelo depoimento do Senhor Cláudio Roberto relatando a sua trajetória de vida, apontando questões da construção comunitária através de sua experiência. 

Seguindo a tradição do projeto “Versão do Passado”, que nas edições anteriores identificou pessoas que são referência dentro da comunidade. Nesta edição o narrador, Cláudio Roberto, é personagem importante e respeitado.

Os critérios para selecionar os entrevistados em Versão do Passado foram:

  1. Quem é morador antigo da comunidade;
  1. Quem atuou ou atua de forma significativa há um período de tempo relevante dentro da comunidade. 

       A prioridade era documentar a história dos mais idosos primeiro, por uma questão de tempo de vida e para porventura não perder a visão inicial do processo de formação da favela.

          Finalmente chegou a vez de Cláudio e ele de imediato concordou em contar sua história. Por que o Seu Cláudio?_ Naílton é velho conhecido, ator, espectador e relator dos processos de cidadania da favela Chapéu Mangueira. Foram diversos encontros e trabalhos feitos com os moradores desde os anos 90. Cláudio sempre foi parceiro nas ações e realizações das edições anteriores do projeto.

          As reuniões dos alunos, ex-alunos e funcionários da FACHA envolvidos nos projetos do NECC (Núcleo de Educação e Comunicação Comunitária) aconteciam semanalmente na Biblioteca da FACHA. Debatíamos a comunicação social e o turismo, e suas formas de atuação na sociedade. Outros diversos assuntos também eram pautados com liberdade pelos participantes e orientados pelo Prof. Naílton Agostinho Maia. Em meio às reflexões também organizávamos os passeios comunitários do projeto “Turismo Popular”. O resgate da memória de locais de baixa renda era feito através do projeto “Versão do Passado”. 

          Tivemos bastante dificuldade nas questões de data e horário, mas a vontade de construir juntos superou todas as expectativas e obstáculos. O agendamento das pré-entrevistas nunca foi um problema porque nosso homenageado sempre esteve disponível. A dificuldade maior foi conciliar os horários dos participantes do grupo para entrevistá-lo. Todos queriam ir, mas em geral seguíamos para o Chapéu Mangueira em dias úteis. O equipamento de vídeo e a Kombi só estavam disponíveis nos dias em que a maioria trabalhava ou estudava. Conseguimos realizar dois encontros, em junho de 2011, munidos de gravadores e celulares, e assim construímos nosso esboço. O trabalho de transcrever o material foi dividido entre cinco membros da equipe, o que acabou mudando e reduzindo as mãos de duas pessoas, as de Paolla e as minhas, por conta de disponibilidade.

         O Turismo Popular acontecia ao mesmo tempo e os envolvidos eram os mesmos. Dispendemos algum tempo para organizar passeios, entre junho e julho de 2011. O grupo de senhoras do Galpão das Artes, Chapéu Mangueira, visitou o Cristo Redentor.  Obviamente neste período desaceleramos o processo de documentação.

          Houve mudanças no contexto do grupo repentinamente neste período após a saída do professor Naílton da instituição. Chegamos a desanimar e a pensar em desistir, que ali seria mesmo o fim, sem a conclusão do trabalho. 

          Surgiu uma vontade de continuar e terminar. A relação do grupo agora se dava por e-mail. Foi na troca de e-mails e reflexões que nos lembramos de uma ação, uma saudação, que mudou complemente o nosso olhar sob nós mesmos enquanto grupo. Lembramos que durante os encontros, ainda na FACHA, trocávamos e-mails e começamos a nos saudar com “Olá extraordinários!” e com isso surgiu o nome do coletivo e o nosso novo olhar para além dos muros da faculdade. O Coletivo de Pessoas Extraordinárias passou a trocar mais mensagens do que se encontrar, o que enfraquecia nossa relação e ação. Algum tempo depois criamos o sistema de reuniões itinerantes, sempre na casa de um dos integrantes. Os encontros se tornaram mensais e em geral aos domingos, e a energia era um misto de trabalho e festa. Pensávamos o mundo filosófica e utopicamente, trocando conhecimentos e experiências ao passo que buscávamos soluções reais e imediatas para dar seguimento a nossa história e a todas as histórias que ainda queríamos contar.

          A solução para finalizar nosso vídeo-documentário veio do morro Santa Marta. Tandy, um dos participantes, formado em publicidade na FACHA, se ofereceu para filmar com seu próprio equipamento. Os integrantes da TV Tagarela, Augusto, Arley, Robson e Glauber também estavam dispostos a contribuir na edição e exibição do filme. Após alguns encontros o grupo envolvido diretamente no processo de execução do trabalho ficou reduzido e bastante óbvio em relação às atribuições. O roteiro de perguntas e a organização do evento da entrevista ficaram por conta de Paolla e eu, enquanto Tandy e Luiz comprometidos com a filmagem, Álvaro com a fotografia e Naílton orientando o trabalho.

          Ainda levou algum tempo até conseguirmos finalmente filmar diante da dificuldade de realizar os encontros conciliando a rotina de cada participante. Em 12 de dezembro de 2011 reencontramos Cláudio e realizamos o trabalho sem nenhuma dificuldade. Entrevistar Cláudio foi muito fácil e tranquilo, pelo fato dele ter orgulho de sua história, interesse em relatar e fazer com que todos conheçam a história do lugar que escolheu para viver. Nosso material rendeu muito e foram mais de duas horas de filmagem. A esposa do Cláudio, Dona Dilma, nos ofertou um almoço delicioso após a filmagem, e mais uma vez unimos trabalho e confraternização como era de costume.

           Nos reunimos algumas vezes mais, mas nada de concreto se resolveu e continuamos estudando e confraternizando. Em novembro de 2012 ficou organizado o encontro para edição e exibição do vídeo. Luiz fez a edição ainda naquele mês. E Paolla fez o convite do evento em dezembro, enquanto eu produzia e articulava o espaço onde seria exibido, e todos os contatos com lideranças locais. No dia do evento, 07 de dezembro de 2012, pudemos contar com Tandy e Álvaro que fotografaram, Paolla distribuiu as cópias do vídeo “Versão do Passado: Cláudio Roberto” e cuidou da produção, e a colaboração da TV Tagarela, com a participação essencial de Augusto e Arley, que filmou o evento, além de cederem o equipamento para exibição, como é de praxe nas atividades de TVs de rua, foi emocionante apresentar o evento e entrevistar as pessoas presentes. 

          Apesar de desde 2004 ter feito parceria com o NECC nos projetos em que atuava, a minha entrada para o grupo de estudos do NECC se deu em 2010 e a partir daí mergulhei totalmente nos projetos, em especial no projeto Versão do Passado. O envolvimento com o projeto é de cunho social e afetivo. O afeto me acompanhou na decisão de apresentar este trabalho numa nova versão, a minha, recontando a história das histórias, que é o que mais gosto de fazer na vida.

Na parte técnica, para captação do depoimento do Seu Cláudio, foram utilizados uma câmera JVC GZ-HD7 Full HD, um tripé de câmera, um microfone lapela e um fone de celular. E para a captação de imagens do evento de exibição, foram utilizados uma câmera Sony Hvr-z, um microfone de mão e um fone de celular. Os registros fotográficos foram feitos com a utilização de uma câmera T3i Canon;

Na parte de montagem, usamos o material do depoimento aliado ao material da exibição. Havia em torno de duas horas de depoimento de Cláudio e trinta minutos da exibição.

Reformatamos totalmente a edição anterior e o novo filme foi editado por Glauber Onofre direto na ilha de edição sem seguir um roteiro.

Tópicos da entrevista:

– A história da família do Cláudio na construção da comunidade Chapéu Mangueira.

– O primeiro mutirão para fazer a caixa d’água na década de 60.

– Participação da Dona Renée na história da construção da comunidade.

– A participação da Igreja na construção da favela junto aos dominicanos.

– Relatos do local onde as pessoas pegavam água antes da construção da primeira caixa d’água.

– A importância dos mutirões para construção da comunidade.

– A fundação da primeira Associação de Moradores.

– Os presidentes da Associação.

– A conta de luz que no início era paga na Associação. 

– A força da Associação.

– O mutirão para carregar os postes.

– A história dele no time.

– A diferença que o time de futebol fez na vida dos meninos da comunidade.

– A história do Artur que ensinava aos rapazes o ofício de mecânico.

– O bloco de carnaval.

– O exemplo dele para os meninos do time.

– O mutirão presente na monografia dele.

– A história dele na Federação Jurídica para defender o time (o boletim, Dr. Francisco Horta). 

– O carnaval e os blocos.

– O grande último mutirão feito há 20 anos.

– A creche da Dona Marcela.

– A função dele como mediador nos conflitos e decisões na comunidade.

– Os cargos que ele exerceu na Associação.

– A história da novela que ele ouvia no rádio do vizinho (Jerônimo, na Rádio Nacional). 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

          Diante dos mistérios que permeiam a mente e o coração das pessoas, deduzo que minha decisão de fazer uma nova versão do vídeo-documentário foi primordialmente afetiva. 

          Ao ingressar na faculdade, como bolsista de projeto social, tive a certeza do meu papel nesse vai e vem cultural e social que se tornou minha vida desde então, e no primeiro dia decidi que o trabalho final seria necessariamente dedicado às favelas. Seria impossível, desnecessário, e um enorme desperdício descartar tal representatividade neste seguimento social, a favela, visto que a minha vivência vem daí e me sinto numa obrigação desobrigada de retribuir todo o conhecimento adquirido no convívio com pessoas que vivem e percebem diferente muito do que acontece em nossa sociedade ainda cega, regrada, pouco social e nada igualitária.

          O processo de construção e documentação da tradição oral já é por si só uma delícia, e para desfrutar disso usei e abusei da teimosia de me agrupar com as pessoas que se importam com isso e com o humano, mesmo que isso pudesse me fazer parecer estranha ou deixar distante dos que veneram apenas o amanhã, sem se saber do ontem, nem abusar do agora.

       A memória, o passado, o antigo, o velho, a família e tantas outras coisas entraram em desuso. E muito de toda a carga emocional e a influência na conduta social baseada no respeito vinha da tradição oral, da história contada nas colchas de retalhos da vovó. Ao se perder a memória, perdemos as referências e não construímos uma identidade, daí a minha preocupação em registrar e recontar.

         Como boa contadora de histórias, o vídeo sobre a vida de um homem que cresceu na favela foi uma desculpa para realizar meu sonho de ver gente da gente na telinha e espalhar aos quatro ventos essa história que merece ser contada para sempre.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade – Lembrança de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

BENJAMIM, Walter. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. (Obras Escolhidas I). Tradução: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BUSATTO, Cléo. Contar e encantar: Pequenos segredos da narrativa. Petrópolis: Vozes, 2008.

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